terça-feira, 31 de maio de 2011

Entrevista a Helton

  Entrevista a Helton
Foram dois os motivos que o fizeram renovar pelo FC Porto: a admiração pelo clube e a estabilidade da família, sobretudo dos três filhos que se encontram em idade escolar. Isto, apesar das muitas propostas que diz ter recebido para se transferir, algumas delas de Inglaterra.
Renovou contrato até 2014. Que significado tem para si?
Estou muito feliz porque o clube mostrou interesse em renovar. Isso, para mim, é uma gratidão. Espero continuar a ajudar a equipa e, se possível, ainda melhorar.
Quando acabar este contrato, terá 36 anos. Este é um sinal de que pretende terminar a carreira no FC Porto?
Neste momento, e com tanto tempo de antecedência, posso apenas afirmar que pretendo chegar ao fim do meu contrato. Depois, na altura, logo se verá o que acontece.
Nesse sentido, pondera prolongar a carreira para lá dos 36 anos, tal como acontece, por exemplo, com Van der Sar no Manchester United?
Confesso que não penso muito a longo prazo. Penso apenas em trabalhar, penso no dia-a-dia, e enquanto me sentir útil e com capacidade para ajudar, estarei sempre pronto para o fazer.
Falou-se, recentemente, no interesse de clubes brasileiros. Algum dia pensou regressar?
Houve muita especulação, mas não houve interesse apenas de clubes brasileiros, porque também tive conhecimento de algumas abordagens de Inglaterra. No entanto, sempre dei prioridade ao FC Porto, não só por me sentir muito bem no clube, mas também por estar completamente adaptado à vida em Portugal. Para além disso, neste momento da minha vida, penso também nos meus filhos, que já andam na escola.
Durante estes anos, viu muitos jogadores a partir do clube. Sente alguma inveja deles?
Não lhe chamaria de inveja… Acho que tudo é uma questão de aproveitar as oportunidades. Nestes casos, há sempre duas partes no negócio, o clube e o jogador, e se surgir alguma coisa tem de ser muito bom para todos. Tive conhecimento de interesse de clubes ao longo destes anos, alguns até me fizeram parar para pensar, mas continuei sempre.
E porquê?
Nesses momentos, há muitos factores que pesam. Nunca fui de trocar muito ao longo da minha vida; aliás, basta ver que só tive três clubes: Vasco, Leiria e FC Porto. Na altura, quando ainda estava no Brasil, era jovem e tinha curiosidade em conhecer outras realidades. A proposta do Leiria era boa e acabei por arriscar. Hoje penso, sobretudo, nos meus filhos. Eles estão adaptados à vida aqui e isso também pesa bastante.

“Não me chamem paizinho…”

Helton é, aos 33 anos, o jogador mais velho do plantel, mas também o mais antigo. Apesar da evidência, e da chegada de mais jogadores jovens (Iturbe e Kelvin), o guarda-redes recusa a alcunha de “paizinho”. “Não me lembrem isso da idade [risos].
E paizinho não, por favor. Já tenho três filhos em casa [risos]. Agora falando um pouco mais a sério: é lógico que sinto que a responsabilidade aumenta e que acabo por ser visto como um exemplo. Mas, hoje em dia, eles já têm uma grande maturidade para a idade. Os miúdos, por exemplo, já têm muito mais conhecimentos do que eu com a idade deles, estão mais bem preparados.
Para além disso, no FC Porto há uma estrutura que protege os jogadores. Aliás, não utilizaria a palavra protecção; prefiro dizer que esta estrutura nos ajuda e facilita a integração. Posso dar o meu exemplo: quando cheguei fui muito bem recebido e, com isso, senti-me mais seguro para atingir o meu potencial”.

“Ficava deliciado na baliza a vê-los trocar a bola”

Não está cansado de ganhar títulos? Só no FC Porto já são 12…
Nunca é de mais [risos]… Quando cheguei a Portugal, também já tinha conquistado alguns no Brasil, no Vasco da Gama, e cheguei com o objectivo de aumentar. Felizmente, consegui no FC Porto mais alguns títulos. Aliás, muitos.
Já conquistou cinco campeonatos no FC Porto. Tem noção de que entrou para a história do clube?
Por acaso, ainda não parei para pensar sobre esse assunto. Tenho-me limitado a viver as alegrias que o FC Porto já me proporcionou, como acredito que também tenha proporcionado algumas aos adeptos. Isso é o mais importante. Quanto aos números, confesso que não viajo muito sobre esse mundo, apesar de ter alguns amigos que estão sempre a falar sobre isso, e a recordar-me que, muito provavelmente, daqui a 20 ou 30 anos ainda vou ser recordado por aqui. Para mim, o mais importante disto tudo, é que, no futuro, os meus filhos vão curtir os feitos do pai [risos]. Se calhar, quando um dia parar, vou ter uma noção mais exacta do que estou a conquistar aqui no FC Porto. Para já, não.
O que lhe falta ganhar no FC Porto?
Vai faltar sempre qualquer coisa. Já ganhei campeonatos, Supertaças, Taças de Portugal, a Liga Europa… Ainda faltam alguns, mas já sabem que me limito a pensar apenas no dia-a-dia, sem nunca pretender criar demasiadas expectativas. Aliás, isso ficou comprovado esta época. Pode não resultar sempre, mas a humildade dá uma ajuda.
Mas para fazer melhor do que nesta época, só vencendo a Champions…
Temos é de trabalhar… Trabalhar para tentar lá chegar, com humildade, porque sem humildade não se consegue nada.
Mas sente que depois da vitória na Liga Europa este grupo está mais preparado para disputar a Champions?
Não sei, isso é muito subjectivo. É verdade que a equipa cresceu muito esta época, amadureceu, o entendimento colectivo foi muito bom; às vezes ficava deliciado na baliza quando os via a trocar a bola de uma forma tão perfeita. Era bonito de se ver. Isso mostra o crescimento da equipa, mas numa competição como a Liga dos Campeões tudo pode acontecer.
Este é o melhor grupo de jogadores que encontrou no FC Porto?
É difícil responder a essa pergunta. Cada grupo teve as suas qualidades, mas também uma mentalidade muito própria, e isso depende muito de quem está a liderar. Sou o mais velho desta rapaziada toda e não posso dizer que este foi o melhor. É verdade que este foi o plantel que mais ganhou durante uma temporada, mas isso é o futebol. Foi apenas uma questão de aproveitar as oportunidades.
Depois de terem ganho tudo, o que se segue na próxima época?
A responsabilidade vai crescer, até porque fica o gosto pelas vitórias. Vamos ver se é possível. As pessoas inteligentes sabem que foi uma época brilhante, maravilhosa, mas que dificilmente será repetida. Aliás, o FC Porto, que é um clube habituado a ganhar, só por uma vez na sua história tinha conquistado quatro títulos na mesma época.

“Não foi fácil ser capitão, nem Jesus agradou a todos…”

Foi fácil ser capitão desta equipa?
Não! Nunca é fácil ser capitão. Desde o início senti isso na pele, senti que era uma responsabilidade acrescida. Mas eles ajudaram-me. Tive um grande apoio do meu treinador. Ajudou-me, não só a mim, mas também ao Mariano e ao Falcao. Ele fez questão de representar sempre o grupo e facilitar a nossa tarefa; fez com que tudo fluísse da melhor forma. Não foi fácil, nunca seria, mas ele simplificou o nosso trabalho.
Pergunto de outra forma: qual foi a importância do Helton no balneário?
O meu papel foi sempre o mesmo: procurei ser honesto e amigo, embora saiba que é impossível agradar a todos; nem Jesus conseguiu agradar a toda a gente, por isso não seria eu que iria ser diferente. Isso faz parte da personalidade de cada um; não somos todos iguais.
O facto de ter sido escolhido para capitão fez com que tivesse aumentado o rendimento em campo?
As pessoas têm especulado muito sobre esse assunto, mas recordo que a braçadeira não joga. Por outro lado, a minha melhor época foi aquela que me proporcionou a transferência para o FC Porto, ainda em Leiria, porque consegui chamar à atenção de um grande clube. Aqui, no FC Porto, limitei-me a dar continuidade ao meu trabalho, até porque também já tinha realizado épocas maravilhosas no Vasco da Gama, onde estive nove anos. Fico um pouco triste quando ouço pessoas a fazer a relação entre a braçadeira e a minha eventual subida de rendimento.

“Estive 24 dias em coma…”

Final da Liga Europa. FC Porto vence e Helton é o primeiro a levantar o troféu. “Não foi fácil a minha caminhada até ter chegado ali. E não me estou a referir ao futebol, mas sim à minha vida pessoal. Vencer a Liga Europa depois de tudo o que eu passei é algo de absolutamente fantástico”.
A resposta levantou a dúvida; afinal quais foram essas dificuldades. Helton recuou alguns anos e contou, emocionado, algumas histórias “difíceis” da adolescência. “Quando tinha 12 anos, passei 24 dias em coma, depois de ter caído de uma árvore pé de jamelão. Tive um coágulo de sangue no cérebro e fui obrigado a tomar um medicamento chamado Adrenal durante dois anos. Subi à árvore, mas escorreguei e caí de cabeça. Devia achar que era o Super-Homem”. Hoje, Helton fala do assunto sem preconceitos, apesar de reconhecer que nem sempre foi assim. “Venho de uma família pobre e já tinha ido fazer testes ao Fluminense. Eles quiseram ficar comigo, mas, como não tinha dinheiro para as viagens, acabei por não conseguir ir para lá; um pouco mais tarde, fui ao Flamengo e também passei nos testes. Mas quando ia começar a treinar, aconteceu o tal acidente”.
Mas Helton não desistiu. Aos 15 anos, e depois de um longo período de recuperação, tentou novamente, desta vez no Vasco da Gama, e voltou a ser bem sucedido. E, daquela vez, nem o dinheiro foi problema para atingir o sonho de ser jogador de futebol. “Tinha um amigo que era DJ, chamava-se Sérgio Magoo, e ele tinha conhecimentos numa companhia de autocarros. Falou com os motoristas e passei a ir para o S. Januário [local dos treinos no Vasco] sem pagar. Eram cerca de 60 quilómetros de viagem todos os dias”. A história que se seguiu mete música, novamente por influência do amigo, a quem faz questão de prestar um tributo. “Ele foi uma pessoa muito importante na minha vida; acompanhou-me quando tive o acidente e até cheguei a morar na casa dele.
Para além disso, ele também me deu um empurrão na música”. Pois é, Helton também foi DJ, por volta dos 17 anos. E tudo para ganhar um dinheiro extra. “Quando ainda estava nos escalões de formação do Vasco, tínhamos um jogador na equipa principal que se chamava França. Ele organizava algumas festas no condomínio onde morava e contratava-me sempre para meter música. Assim, aproveitava para ganhar mais algum dinheiro. Mas já nessa altura adorava música”. Uma paixão que se prolonga até hoje.

“Sem a música não renderia no campo”

Helton mostra o estúdio que construiu em casa com um orgulho enorme. Afinal, o guarda-redes é também conhecido pelo seu lado musical, mas também por levar quase sempre um instrumento para os estágios da equipa. E nem mesmo nas férias dispensa uma das suas grandes paixões. “Confesso que, nesta altura, prescindo da praia por uma boa gravação num estúdio”. O pior é a família. “Sou apaixonado pela música desde pequeno. Tenho um tio que é compositor e a minha mãe sempre ouviu muita música em casa.
Aliás, agora vou para o Brasil para o meu outro estúdio. A minha família fica doida [risos]“. Helton vai mais longe e relaciona as suas exibições com este outro lado artístico. “Eu sem a música não renderia nada. Esta é a minha terapia. Por exemplo, tenho de levar um instrumento – violão ou cavaquinho – para os estágios ou, na pior das hipóteses, o meu iPhone, porque é assim a minha vida”.

“Não finto para aparecer”

Concorda com a ideia de que arrisca muito quando joga com os pés?
Sempre fui assim; já falhei no Vasco, já falhei no Leiria, felizmente ainda não falhei no FC Porto, assim como grandes guarda-redes já falharam. Quando se trata dos guarda-redes, a finta só é vista pelo lado negativo; carregamos essa cruz. Mas uma coisa queria deixar bem claro: não faço isto para aparecer, ao contrário do que se pode pensar. Finto quando tenho de fintar, muitas vezes sem noção do que estou a fazer e com o único objectivo de ajudar a equipa, porque entendi que, num determinado momento, aquela é a melhor opção. O FC Porto joga de uma forma arriscada, audaciosa, e eu não me importo de assumir a “bronca”, como se diz no Brasil.

Beto não o obriga a dar mais

Beto foi decisivo na final da Taça de Portugal e tem-se revelado um concorrente à altura de Helton. O brasileiro concorda com os elogios, mas refuta a ideia de que o internacional português o faz dar ainda mais no dia-a-dia. “Não, de maneira nenhuma. Vou continuar a ser sempre o mesmo. Aliás, quando ele estava para chegar, muitas pessoas disseram que ele tinha vindo para pressionar o Helton, mas eu sempre deixei bem claro que não nasci titular. Se jogar, melhor, mas respeito o Beto, o Pawel [Kieszek], o Kadu ou o Maia. Isso não faz parte da minha maneira de ser”.

Fonte: O Jogo
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